Recentemente, em duas diferentes discussões com interlocutores um tanto truculentos, fui acusado de obscurantista por um, e místico pelo outro. E ambos se adiantaram a diagnosticar que meus vícios se deviam ao meu interesse nos últimos anos pelas ideias de Heidegger.
Curiosamente, duas discussões que eu não queria e que me atropelaram. Minha disposição para discutir tem se reduzido bastante, e particularmente com pessoas munidas de respostas que se pretendem objetivas e peremptórias, livres de contextos ou condições, e com a suposta novidade da ciência a lhes dar autoridade para nos perseguir com contas, cálculos e resultados. Mas com estas pessoas, praticamente não temos escolha, pois só a vaga ideia de que vai alguém ali que não é tão confiante que a compreensão de uma frase ou a identidade pessoal não são coisas de se resolver na prancheta de um cientista já torna este alguém uma espécie de ultraje. Afinal, no parque temático contemporâneo, qualquer coisa que um homem de jaleco branco e prancheta disser vai nos fazer felizes, e o que se exige é que entremos no jogo e simplesmente fiquemos ali disputando no bate e volta, confrontando resultados com outros resultados e, deste modo, concordando tacitamente com a presunção de que tudo que nos resta é "impor resultados". Obviamente, neste quadro, ficar em silêncio, o silêncio significativo e cauteloso, também é um crime de deserção, uma quase conspiração contra a presunção do progresso.
"Contexto", uma palavra que ando até com medo de usar, como se ela fosse policiada ou tivesse dono que a comprou para ela não poder sair à noite e flertar com outras possibilidades de leitura.
Místico e obscurantista, e por influência de Heidegger. Fiquei particularmente magoado pela injustiça. Heidegger não é místico nem obscurantista, nem mesmo em sua segunda fase. Ele não é, mas eu o sou, com muito gosto.
Quem lê este blog por algum tempo sabe disso. Milito em minhas superstições e só acredito no que movimenta de algum modo nossa aptidão de sonhar. Aqui há argumentos, razões, exemplos, questionamentos, até refutações, ainda que raríssimas. Tem de todas estas manobras da esgrima argumentativa aqui e ainda assim, não são o que importa. São como que sinais que indicam direções e pontos no caminho sem serem o próprio caminho. Se algo há de decisivo neste blog, não é nenhum destes lances, que sempre pairam vazios e inócuos no ar a espera de outros contra-lances quando o combate não é vinculador. Se algo neste blog foi decisivo foi no sentido de conduzir o leitor a uma atitude de reivindicação de si, de vinculação com o questionamento proposto, o questionamento por nós mesmos. Esta condução não é um apontar, nem a apresentação de uma prova, mas dar ocasião, dar... contexto, a tal palavra policiada que tenho agora que libertar. O contexto que eu esperava dar com este blog não é o contexto opaco, dos exemplos genéricos, que varia de modo bem comportado e indiferente. O contexto que me interessa é o contexto em ato, o contexto "que se dá", afinal, o contexto de singularização da gente, que não é a singularização das constantes matemáticas ou lógicas. Este contexto não se determina dando-lhe uma letra ou um algorítimo. Este contexto se resgata como o lugar em que já habitamos, ou se o esquece e se o abandona, como os bairros mais antigos de uma cidade que vão sendo degradados conforme outros mais modernos são valorizados. Todo o Odisseia Banal é tentativa de um tal resgate.
Mas aí se vê, neste caso, que não há porque luta, não é com a palavra categórica da disputa que este resgate é possível. Cada discussão vencida é só outra novidade que se estabelece ao lado das outras. É só mais um fato a ser constatado. A palavra que dá ocasião para a gente ser não é das que se acumulam como resultados, mas das que comovem e convocam, como na oração pública, no poema recitado, no discurso do líder político. Esta palavra, que eu busquei todos estes anos aqui, deveria ser a palavra compreensiva e instauradora num horizonte mais abrangente e vinculador que a oração, o poema e o discurso. É óbvio que ainda estou muito longe do meu intento, mas é óbvio também que, se eu levo a sério o que estou fazendo aqui, não tenho tempo a perder com discussões que já começam insípidas para com a dimensão que eu questiono, como alguém que julgasse poder compreender com um telescópio o que o sublime do céu estrelado tem de significativo para nossos antepassados e para as gerações que nos esperam.
Por outro lado, eu não consigo deixar de me ver numa gritante futilidade quando me vejo forçado a desautorizar a ciência onde a própria ciência não pretende nenhuma autoridade. Os cientistas não estão interessados em responder questões filosóficas mas simplesmente em explicar as coisas e dizer o que é ou não o caso. Se algo mais há por se perguntar além das natureza das coisas e do que é ou não o caso, não é algo que nenhum cientista pode resolver, pelo próprio horizonte em que ele se posiciona. Não é a ciência que quer nos cassar a liberdade e o empenho existencial, mas maus filósofos que não assumem a responsabilidade pela inquietude e pela inconclusão que são próprias à filosofia, e num modo mais difundido, à existência.
Então, não é por certezas e convicções inabaláveis que eu me esquivo de certos interlocutores. É por misticismo e obscurantismo mesmo. Misticismo por que aquilo por que estou perguntando só se faz acessível no rito apropriado, e eu pergunto também por este rito portanto. O rito envolve solenidade e reverência e pede, assim, um questionamento compreensivo, como o dos ouvintes atentos, e não o questionamento inquisitivo, dos policiais e cientistas. E obscurantista, porque ainda que tudo possa ser explicado, nem tudo pode se dar mediante explicações. É geralmente ocioso, por exemplo, explicar uma piada. Se você tem que explicar a piada, é porque ela não teve graça. Contar bem uma piada, quer dizer, contar a piada de modo a dar contexto e ocasião ao que ela se destina, envolve inclusive não ser óbvio, não explicar demais.
Pensando bem, talvez nos sentidos indicados, Heidegger também seja místico e obscurantista. Mas, neste caso, não mais do que Kant e seu Fato da Razão, não mais do que Wittgenstein e seu modo difuso de questionar e elucidar. O que mostra que isto tem pouca importância. Vi-me forçado a refletir a respeito porque estou cansado, e este cansaço é para mim muito mais esclarecedor do que qualquer nova pesquisa ou artigo recém publicado.
Mas aí se vê, neste caso, que não há porque luta, não é com a palavra categórica da disputa que este resgate é possível. Cada discussão vencida é só outra novidade que se estabelece ao lado das outras. É só mais um fato a ser constatado. A palavra que dá ocasião para a gente ser não é das que se acumulam como resultados, mas das que comovem e convocam, como na oração pública, no poema recitado, no discurso do líder político. Esta palavra, que eu busquei todos estes anos aqui, deveria ser a palavra compreensiva e instauradora num horizonte mais abrangente e vinculador que a oração, o poema e o discurso. É óbvio que ainda estou muito longe do meu intento, mas é óbvio também que, se eu levo a sério o que estou fazendo aqui, não tenho tempo a perder com discussões que já começam insípidas para com a dimensão que eu questiono, como alguém que julgasse poder compreender com um telescópio o que o sublime do céu estrelado tem de significativo para nossos antepassados e para as gerações que nos esperam.
Por outro lado, eu não consigo deixar de me ver numa gritante futilidade quando me vejo forçado a desautorizar a ciência onde a própria ciência não pretende nenhuma autoridade. Os cientistas não estão interessados em responder questões filosóficas mas simplesmente em explicar as coisas e dizer o que é ou não o caso. Se algo mais há por se perguntar além das natureza das coisas e do que é ou não o caso, não é algo que nenhum cientista pode resolver, pelo próprio horizonte em que ele se posiciona. Não é a ciência que quer nos cassar a liberdade e o empenho existencial, mas maus filósofos que não assumem a responsabilidade pela inquietude e pela inconclusão que são próprias à filosofia, e num modo mais difundido, à existência.
Então, não é por certezas e convicções inabaláveis que eu me esquivo de certos interlocutores. É por misticismo e obscurantismo mesmo. Misticismo por que aquilo por que estou perguntando só se faz acessível no rito apropriado, e eu pergunto também por este rito portanto. O rito envolve solenidade e reverência e pede, assim, um questionamento compreensivo, como o dos ouvintes atentos, e não o questionamento inquisitivo, dos policiais e cientistas. E obscurantista, porque ainda que tudo possa ser explicado, nem tudo pode se dar mediante explicações. É geralmente ocioso, por exemplo, explicar uma piada. Se você tem que explicar a piada, é porque ela não teve graça. Contar bem uma piada, quer dizer, contar a piada de modo a dar contexto e ocasião ao que ela se destina, envolve inclusive não ser óbvio, não explicar demais.
Pensando bem, talvez nos sentidos indicados, Heidegger também seja místico e obscurantista. Mas, neste caso, não mais do que Kant e seu Fato da Razão, não mais do que Wittgenstein e seu modo difuso de questionar e elucidar. O que mostra que isto tem pouca importância. Vi-me forçado a refletir a respeito porque estou cansado, e este cansaço é para mim muito mais esclarecedor do que qualquer nova pesquisa ou artigo recém publicado.
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